“Temos poucas fontes para estudarmos a nossa cozinha. Este prémio irá contribuir para que no futuro haja literatura relevante neste campo”

Fátima Moura venceu o Prémio Portugal Cookbook Fair 2019, na categoria Livro do Ano, com a obra “Do Cacau ao Chocolate”. Editado pelos CTT e muito indicado para colecionadores, este livro, numerado e com mais de 280 páginas, é uma viagem à história e a todo o processo de produção do cacau. Nesta entrevista, a autora explicou-nos todos os detalhes relacionados com o projeto.
Portugal Cookbook Fair. Antes de mais e começando pelo princípio, como surgiu a ideia de fazer este livro e qual foi o seu objetivo?Fátima Moura. Este livro está enquadrado no meu projeto de escrever sobre produtos portugueses ou ligados a Portugal. Sempre quis investigar a nossa gastronomia através dos produtos e não das receitas, porque são estes que formam a estrutura da cozinha de uma região ou de um país. Vem na sequência de livros sobre o peixe, a cataplana, os enchidos e presuntos, o bacalhau e o café. Tenho intenção de escrever também sobre as nossas raças autóctones e os nossos queijos. Penso que seria mais proveitoso que os cozinheiros exercessem a sua criatividade utilizando os nossos produtos, com o valor acrescido de os ir desenvolvendo, do que desconstruírem ou recriarem receitas.

PCBF. E porquê a escolha do tema chocolate? Era um interesse antigo?
FM. Quis sobretudo mostrar aos muitos portugueses que adoram chocolate que o nosso país teve um papel importante na difusão deste alimento. Fomos nós, mais precisamente o nosso D. João VI, quem introduziu o cacaueiro em África no século XIX. Depois perdemos interesse pelo chocolate e, quando ele se industrializou, não tínhamos qualquer possibilidade de estar na liderança do processo. Nem sequer os espanhóis tiveram. Foram povos mais industrializados, como ingleses, belgas, franceses e suíços que dominaram e, ainda hoje, dominam o mundo do chocolate. Por essa mesma razão, os países produtores de cacau só vendem a matéria-prima, sem nunca conseguirem fazer todo o seu processo de transformação. Não são eles que processam o cacau e o transformam em chocolate, mas sim os países consumidores industrializados. Só hoje em dia a situação está a mudar, com a moda dos chocolates artesanais, que começam a ser feitos em alguns desses países produtores de cacau.

PCBF. Como foi discutir esta ideia e avançar para um projeto com os CTT?
FM. Para mim, é uma honra trabalhar com os CTT. São uma editora extremamente rigorosa e que investe em livros de qualidade. A seguir ao café, fazia todo o sentido apresentar o chocolate. O diretor da Filatelia, Raul Moreira, sempre apostou na história da alimentação. Aliás, os CTT foram os primeiros no mundo a fazer selos com comida.

PCBF. Desde a estabilização da ideia até à impressão, quanto tempo demorou a desenvolver este projeto?
FM. Cerca de dois anos e meio. É um processo complexo, que passa também por uma ou mais emissões de selos alusivos ao tema, incluídos em todos os livros. Cada um dos exemplares é numerado e destina-se também a colecionadores filatélicos. Por esta razão, nunca pode existir uma segunda edição.

PCBF. Um livro como este, com mais de 280 páginas, obrigou a muitas horas de pesquisa e investigação. O que mais a fascinou neste trabalho?
FM. Sou viciada em informação, tenho uma compulsão para investigar. Às vezes, tenho dificuldade em parar. Os editores que trabalharam comigo já sabem que os livros têm sempre mais páginas no fim do que era suposto…A ida a S. Tomé permitiu-me investigar in loco e, como fui com o Mário Cerdeira, o fotógrafo que faz sempre equipa comigo, houve a oportunidade de trazer imagens muito adequadas ao texto.

PCBF. São Tomé é uma ilha fascinante. Devem ter vivido muitas aventuras interessantes…
FM. Houve um dia de calor imenso em que obriguei o Mário a subir um grande morro – carregado de equipamento – para ir fotografar a casa de um antigo administrador da roça Porto Alegre. Para conseguirmos romper, tivemos que cortar o mato à catanada. A dada altura, quando olhei para os meus braços, vi-os negros, cobertos de mosquitos. Como havia um grande surto de malária, achei que já estava contaminada…Mas não se passou nada! Quando chegámos lá cima, verifiquei que a casa não era da época que eu pensava e que não tinha valido a pena a subida. Só que a vista era tão espetacular que o Mário acabou por fazer ali algumas das melhores fotos do livro.

PCBF.…e quais foram as maiores dificuldades que sentiu?
FM. As minhas maiores dificuldades estão sempre em saber parar. Quero ir sempre mais longe, mas depois é o fator tempo que acaba por resolver a situação e me obriga a encarar a realidade.

PCBF. Acreditamos que se tratou de um trabalho de equipa. Queres falar-nos um pouco sobre isso?
FM. Gosto imenso de trabalhar em equipa. E esta foi uma equipa extraordinária. Já falei do Mário Cerdeira, mas houve também uma pessoa muito importante, a editora que trabalhou comigo, a Maria Manuel Sousa, e os chocolatiers Francisco Siopa e Francisco Moreira, o blogger Nuno Hetfield, e muitos outros. Sem esquecer a revisora, Conceição Candeias, que faz sempre um trabalho incrível.

PCBF. Fora da sua equipa, contou com o apoio de alguém em especial?
FM. Aprendi imenso na Imperial, fábrica de chocolate, e na Equador, que produz chocolates artesanais. A maioria das pessoas não imagina a complexidade do processo de passagem do fruto do cacaueiro a uma tablete de chocolate. Para não falar dos cuidados necessários até ao nascimento de um bom fruto de cacau.

PCBF. Ao lermos o livro apercebemo-nos que se trata de uma obra profusamente ilustrada. Foi fácil recolher todas estas imagens, muitas delas históricas?
FM. Nunca é fácil. Primeiro, é preciso saber o que queremos ilustrar e como. Depois, é preciso encontrar as imagens e procurá-las em locais onde não sejam demasiado caras. São centenas as necessárias para um só livro. Neste processo, tive a ajuda preciosa da editora Maria Manuel – que já referi acima – e que encontrou verdadeiros tesouros.

PCBF. E como decorreu o trabalho de paginação, de integração do texto no formato e design escolhido para o livro?
FM. Houve sempre um diálogo entre a empresa que faz os trabalhos gráficos, a editora e a autora. Os livros dos CTT são sempre muito cuidados nesse campo. Eu procuro acompanhar todo este processo até ao fim.

PCBF. O que representa para si receber o Prémio Portugal Cookbook Fair para “Livro do ano”?
FM. Foi muito importante e uma grande alegria. É sempre bom ver o trabalho reconhecido de forma inequívoca. Houve muita gente a dar-me os parabéns, o que que dizer que o prémio já é muito divulgado. Obrigada à Brandscape, e também e ao júri, por me ter achado digna do prémio.

PCBF O que pensa destes prémios, enquanto iniciativa para a promoção dos conteúdos gastronómicos publicados em livro e em língua portuguesa?
FM. Foi uma iniciativa muito bem-vinda, esta da Brandscape com a Feira do Livro. Não havia nenhum prémio para livros ligados à história da alimentação e à cozinha. Espero que continue a repetir-se e que o seu prestígio se vá sempre alicerçando, ano após ano. Infelizmente, a nossa história da alimentação sempre foi pobre, nunca foi cultivada. Como consequência temos poucas fontes para estudarmos a nossa cozinha. Este prémio valoriza este tipo de livros e irá contribuir para que, num futuro próximo, haja literatura relevante neste campo.

PCBF. Depois de receber este prémio vai descansar um pouco ou já está a trabalhar noutro livro?
FM. Já estou a trabalhar noutro projeto para os CTT, em parceria com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. O tema é a caça em Portugal e já levo mais de três anos dedicados a este tema.